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Joachim Martinez de Pasqually: Principais aspéctos de sua obra e legado

 

Joachim Martinez de Pasqually (c. 1727–1774) foi uma das figuras mais enigmáticas e influentes do ocultismo e da maçonaria esotérica do século XVIII. De origens incertas — especula-se que tivesse ascendência hispânica ou judaico-portuguesa —, ele ganhou notoriedade na França ao fundar, por volta de 1767, a Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Coëns do Universo. Diferente das lojas maçônicas tradicionais focadas na moral e na simbologia da construção, a ordem de Pasqually funcionava como uma verdadeira escola teúrgica, combinando esoterismo cristão, elementos da cabala e rituais minuciosos de invocação espiritual. 

A espinha dorsal de seu pensamento está registrada em sua obra central, o Tratado sobre a Reintegração dos Seres. Segundo essa cosmogonia, o homem teria caído de seu estado espiritual divino original e ficado aprisionado na matéria; por isso, a missão do iniciado era passar por um rigoroso processo de purificação e práticas teúrgicas operativas para alcançar a "Reintegração" com o Criador. Suas práticas eram notoriamente exigentes e práticas: envolviam traçados de círculos mágicos na terra, orações em horários astronômicos específicos e jejuns, com o objetivo de obter manifestações visíveis e audíveis de entidades angelicais (conhecidas na ordem como "passes" ou "A Ns"). 

Curiosidades e Legado: O destino e a vida pessoal de Pasqually foram cercados de mistério. Apesar de ter formulado uma doutrina profunda e complexa, ele tinha grande dificuldade para escrever em francês correto, contando com o trabalho constante de seu secretário e mais brilhante discípulo, Louis-Claude de Saint-Martin (o "Filósofo Desconhecido"), para redigir e corrigir seus manuscritos. Em 1772, Pasqually viajou para Saint-Domingue (atual Haiti) a fim de reivindicar uma suposta herança familiar, mas acabou contraindo uma febre tropical e morrendo em Port-au-Prince em 1774. Apesar de sua morte prematura, seu legado deu origem ao Martinismo moderno e ao Rito Escocês Retificado (RER), moldando para sempre a tradição mística ocidental.

A singularidade Crística de Louis-Claude de Saint-Martin (1743–1803), o "Filósofo Desconhecido", reside na sua decisão de desviar o esoterismo ocidental do ritualismo e das operações mágicas externas para reorienta-lo inteiramente rumo a uma experiência mística interior, direta e intimista centrada na figura do Cristo.

O Cristo como "O Reparador" (Le Réparateur) 

Na cosmogonia de Saint-Martin, Cristo não é apenas uma figura histórica ou um dogma Teológico tradicional, mas a própria Personificação do Princípio Divino atuante na criação e na salvação. Ele se refere a Cristo predominantemente como O Reparador. Enquanto seu mestre, Martinez de Pasqually, ensinava a busca por intermediações de espíritos angelicais ("passes") via teurgia complexa, Saint-Martin defendia que nenhuma entidade criada poderia substituir o papel do Cristo como o único mediador direto capaz de restaurar na humanidade a imagem divina perdida na Queda.

A "Via do Coração" (La Voie du Cœur) 

Enquanto os ocultistas de seu tempo buscavam fenômenos psíquicos, evocações visíveis e complexos graus iniciáticos, Saint-Martin propôs uma via despojada de artifícios materiais. Para ele: 

  • O Templo é a Alma: Não há necessidade de círculos traçados no chão, túnicas ou fórmulas secretas; o verdadeiro templo da reconciliação é a alma humana. 
  • O Altar é o Coração: A verdadeira operação espiritual acontece através do desejo ardente de Deus (daí o conceito do Homem de Desejo), da oração contemplativa e do arrependimento sincero. 
  • A Reintegração Interna: A transmutação do ser não vem do poder teúrgico sobre os espíritos, mas do "nascimento do Cristo no coração" do indivíduo. 

A Filosofia da Unidade Espiritual 

Sua singularidade também se destaca pelo contraste com a obsessão do século XVIII pelo racionalismo iluminista de um lado e pelas sociedades secretas e alquímicas do outro. Influenciado profundamente nos seus últimos anos pelas obras de Jacob Böhme, Saint-Martin sustentava que o conhecimento oculto é inútil se não levar ao amor de Deus. A regeneração humana, na visão saint-martinista, é um ato de graça e de entrega interior (Gelassenheit), no qual a alma permite que o Reparador trabalhe silenciosamente dentro dela para reintegrá-la à Unidade divina. Influenciando o Martinismo moderno.

Edição: Isaac Costa.

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